sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Como lembrar daquilo que não se esqueceu?



Dizem que o maior remédio é o tempo! Que ele coloca tudo no lugar, resolve as injustiças e tudo mais. Por muito tempo eu acreditei nesse "ditado popular", hoje vejo que o tempo simplesmente passa, ele te dá outras preocupações, afinal 'o tempo não pára', não é mesmo? Vivemos em um tempo que tudo é pra já! Sempre havendo coisas "mais importantes" para se pensar, decisões a tomar, obrigações à serem realizadas, sorrisos para fingir que sempre está tudo bem!

No ano de 2012 eu morava em Caruaru - PE, a situação do sistema de saúde lá era bem difícil (assim como tem ficado cada vez mais no país inteiro). Se tornou comum eu sentir muito cansaço e dormir constantemente, em um despertar do cochilo para me virar na cama, pensei 'Gente, tô dormindo muito, será que estou grávida?', mas como sentia "cólicas", acreditei ser o calor de Pernambuco me fazendo mal como de costume! As dores ficaram cada vez mais intensas, então resolvi ir ao médico, deixei o Arthur com o meu (ex)marido e fui com um amigo nosso de moto! Ao chegar, o médico fez as perguntas de praxe, quando mediu minha pressão arterial, me perguntou se eu estava grávida! Eu rapidamente disse que não tinha como, meu filho tinha dois anos, que eu amamentava e tal! O médico me disse que iria passar um medicamento para aliviar as dores, mas que esse remédio era para grávidas, pois os sintomas que eu apresentava era de gestante, principalmente minha pressão, e que provavelmente seria uma gravidez de risco. Fui para casa atordoada, eu não sabia o que fazer, estava procurando emprego, não sabia se conseguiria amar outra criança da mesma forma que amo o Arthur! Ao chegar em casa resolvi fazer o teste de farmácia: PIMBA! Positivou! Fiz o segundo teste: UFA! Negativo! Então resolvi fazer o de sangue! Não tinha mais como negar, estava grávida! 'Meu Deus, não quero essa criança!' Era o que eu pensava, não sentia amor por ela, sentia pavor com a ideia de ter outro filho, ainda mais com o Arthur tão pequeno (mal sabia que anos depois ficaria grávida da Ravena quando o Léo tivesse 9 meses)!
As dores se tornaram mais fortes, eu tinha que ir ao hospital constantemente, isso quando conseguia sair da cama. Foi quando o meu (ex)marido disse que deveria voltar para SP, aproveitar que minha mãe estava visitando minha avó e viajar com ela. Assim foi! Eu e o Arthur viemos na frente com minha mãe! Chegamos num sábado, início de março, segunda-feira já estava passando na primeira consulta do pré-natal! Marquei minha primeira ultrassonografia e fiquei feliz pois dava tempo do pai chegar e vermos juntos o bebê pela primeira vez. Até então já tinha me acostumado com a ideia, ainda não amava aquele ser como amei o Arthur desde quando soube que ele existia, mas tudo bem, eu iria aprender amá-lo, só precisava de tempo!

Então chegou dia 06/04, fui com meus pais visitar minha irmã e meu cunhado, Arthur já ganhara seu primeiro ovo de páscoa, desde então eu não andava com ele no colo, pois minha gravidez era de risco, não podia ter relações sexuais, não podia pegar peso, etc, etc, etc. Eu seguia tudo à risca, até que ao chegar em casa, de noite, fui ao banheiro, ao abaixar minha calcinha vi sangue, gritei minha mãe, ela me disse para manter a calma, tomar um banho e dormir com as pernas para cima, que meu pai estava cansado e na manhã seguinte me levaria ao hospital, mas que isso era comum! O desespero tomou conta de mim! Eu passei maior parte da madrugada chorando, sabia que iria perder meu filho! Tentei "barganhar" com Deus, me lembrei de uma matéria no jornal que eu tinha visto alguns dias antes de uma mulher que o bebê morreu na barriga, ela se recusou a tirar e por um milagre o bebê voltou à vida! Se é verdade ou não, até hoje não sei. Mas eu queria acreditar que ficaria tudo bem, porém, algo dentro de mim já entendia onde tudo iria acabar.

Na manhã seguinte, 07/04 (sábado) acordei cedo, coloquei um absorvente, liguei para minha madrinha de casamento e pedi que me acompanhasse até o hospital mais próximo, ao chegar lá, expliquei tudo ao médico (se é que pode ser chamado assim), disse que era de risco e tudo mais, ele riu com deboche e disse que 'O pessoal de Caruaru não sabe de nada!' e me pediu para deitar na maca. Quando ele fez o exame de toque, sua mão parecia ter puxado a tampa da pia, quando ele puxou a mão seguiu uma poça de sangue, a enfermeira que estava do lado olhou com uma expressão de nojo; aquele homem pediu que eu me vestisse e fosse para casa tomar um "remedinho para segurar o bebê" e voltar na segunda-feira para ver como estava o bebê, porque meu colo do útero estava abrindo e eu corria o risco de perder. Eu senti um buraco no peito, um buraco frio e doído. Saí da sala sem chão, chorando, voltei para casa e a Pamela (a madrinha) me disse pra procurar outro médico, porque, no mínimo, esse deveria ter me deixado internada!

Resolvi ir no hospital que o Arthur tinha nascido, mas dessa vez fui com minha irmã. (Como eu agradeço por ter ido com ela!) Ao chegar lá, fui examinada, a médica me disse que o colo do útero estava TOTALMENTE aberto, aos prantos eu pedi que me dessem algo para segurar meu filho, eu queria fazer alguma coisa, eu estava aprendendo a amá-lo, eu precisava de tempo, eu daria qualquer coisa pra tê-lo! A médica me disse que não tinha o que ser feito, eu iria perder o bebê, mas como não havia expulsado tudo, teria que fazer a curetagem!

Saí da sala, nem sei como, avisei minha irmã (sinto tanto por ela ter presenciado aquilo) e entrei na sala do anestesista. Pedi uma anestesia geral, mas não pude receber, então tomei a peridural, o desespero foi maior, pois eu não dormiria, eu veria tudo! A enfermeira me deitou e eu só ouvi o médico me dizendo que tudo acabou! Minha mente desligou o tempo de todo o processo...

Então, dia 08/04 recebi alta, com dores de cabeça de enlouquecer, o choro era livre, a melhor parte de estar em casa era ver o Arthur, tê-lo comigo foi o que me manteve sã. A pior parte foi ter que ouvir que 'Deus sabe das coisas!', 'Melhor isso do que seu filho nascer com uma doença!', 'Foi vontade de Deus!'.
Trinta dias depois eu fui buscar o resultado com o motivo de eu ter abortado, e sabe de uma coisa? NINGUÉM SABE! Meu filho simplesmente morreu, morreu em mim, eu carregava no ventre um corpo sem vida que começara a necrosar, e no pouco tempo que ele passou comigo, ele não se sentiu amado, e eu só precisava daquele maldito tempo para amá-lo!

Dizem que o tempo cura tudo! O tempo passou para todos, inclusive para mim! Tive mais dois filhos, mas não deixa de doer! Nenhum filho substitui a dor de perder outro, mesmo que um feto de 3 ou 4 meses! O pai não falava sobre o ocorrido, as pessoas ao meu redor queriam que eu voltasse ao "normal" o mais rápido possível, e eu "voltei" por medo de acharem que era drama!
Recentemente decorei uma parede com as fotos de umas roupinhas dos meus filhos, mas desse, eu não tive tempo, de sua breve existência eu tenho um pedaço de papel, um laudo; e ele está na parede junto com os quadros dos irmãos. Meu marido achou mórbido e me pediu para tirar, pois, na opinião dele, vou me lembrar toda as vezes que olhar para lá. Mas eu disse pra ele e digo aqui: "Não ter o quadro na parede não quer dizer que eu não lembre do que aconteceu! Ele não deixou de ser meu filho!".

A mãe de um amigo meu disse que a dor não vai embora, ela sempre estará aqui, você só aprende a lidar com ela, mas sempre irá doer! Hoje, escrevendo o texto me debulhando em lágrimas! Olhar aquela parede não me dói, mas se alguém me pedir pra falar algo me vem aquele aperto no coração, e tudo bem! Estou tentando lidar com isso depois de seis anos, e não sei quando vou poder tocar no assunto sem chorar como se tudo estivesse acontecendo no exato momento! Uns dias estou bem, outros imagino como seria, o nome que daria, com quem iria parecer! Hoje vejo gestantes e recém-nascidos sem problemas, mas tive que trabalhar isso, pois houve um tempo que tinha crise de choro se os visse na rua, parava nas vitrines das lojas para bebês, não entendia o motivo de ter abortado, e se pudesse pedir algo ao Criador, pediria ao menos um dia com meu filho. Naquele momento eu não perdi "apenas" um bebê, depois disso, nunca mais senti a mesma alegria de antes! Então não se cobre demais! Não ache que é fraca por se lembrar do que aconteceu. Você é humana! A culpa NÃO é sua! Você não é "A" inútil que não consegue segurar um bebê no ventre! E o Tempo, bom, se ele curava alguma coisa, acho que ele já passou da data de validade!

Um comentário:

Estefania disse...

Nossa, que história tão triste e ao mesmo tempo tão humana!!
Todos nós temos episódios que nos marcam momentos da vida, mas um acontecimento como esse é tão profundo que não dá nem pra imaginar o quanto é inesquecível.
Sinto uma imensa tristeza ao acompanhar as suas memórias e uma vontade de ter estado ao seu lado também. Como Mãe, eu sinto muito mesmo pela sua dor...

SEJA UMA DE NÓS!